A cada ponto que faço com as agulhas, desfaço um preconceito em minha cabeça

Crônica de Thalita Delgado.

E é assim até hoje. Com quase um ano totalmente assumida que o crochê é meu trabalho e minha paixão, todos os dias eu sou colocada à prova de que quando faço um ponto com agulha, preciso também desfazer um nó do preconceito. Quando comecei a exercer minha criatividade em forma do crochê uma única frase tomava conta da minha mente e era repetida diariamente pra mim “crochê é coisa de vovó”.

Para um mundo onde mulheres já são colocadas como submissas, inferiores e menos capazes, trabalhar com qualquer que seja o artesanato é praticamente voltar três casas do sucesso no jogo da vida. Era assim comigo todos os dias! Eu me via rodeada de vontade, criatividade, pensamentos e inspiração. Mas também me via rodeada de desprezo, desvalorização, dó, e pouquíssima aceitação.

Mas, aos 25 anos, pouquíssima idade, eu tinha certeza de que eu não queria mais fazer o que eu estava fazendo. Eu queria muito me expressar. Queria criar coisas. Queria me tornar uma mulher diferente. E aí, nesse momento eu me vi desafiada a encarar uma nova realidade, eu queria elevar a Licota Crochetaria a um patamar em que as pessoas entendessem que artesanato é um processo valioso, único e difícil.

licota1
Bolsa de crochê de fio de malha da marca Licota. Foto: Isabela de Magalhães

Com o tempo percebi que quem tinha o poder de fazer essa mudança era eu. Eu tinha conhecimento técnico, linhas, agulhas e muita gente que talvez pudesse querer escutar minha história. E foi assim, de pouco em pouco que fui me tornando mais forte à frase “crochê é coisa de vovó”. Crochê é sim coisa de vó, mas também é coisa de tia, de mãe, de sobrinha, de marido, de amigo, de filho. Crochê é coisa de gente!

A desvalorização das técnicas manuais é um resquício de um problema cultural em nosso país. Basta pararmos para refletir como sempre fomos e até hoje somos estimulados a achar mais valiosos produtos vindos do exterior. Somos estimulados a conhecer países de primeiro mundo, mas não conhecemos Tiradentes, cidade que é um dos marcos da nossa história como Brasil.

Temos a tendência de super valorizar cantores internacionais e pagamos muito dinheiro por um show. Mas não sabemos muita coisa ou quase nada por Bezerra da Silva, Dona Ivone Lara, Cartola, Pixinguinha, Adoniram Barbosa e Noel Rosa. Nomes de peso para o samba do nosso Brasil.

Crescemos em uma cultura que não consegue ou não reflete em como nossa cultura é rica. Não estou tentando dizer que somos pessoas que desvalorizamos nossa cultura nacional, apenas tento mostrar que não paramos para refletir do porque alguma coisa é vista com um olhar de julgamento e outra com um olhar enaltecido.

O trabalho manual é fonte de renda por grande parcela das famílias brasileiras, e muitas delas são técnicas passadas por gerações entre famílias. Muitas destas pessoas passam horas sentadas confeccionando peças que vão ser vendidas nos exterior por preços altíssimos. Então, porque lá fora temos tanto valor e aqui, pertinho da gente, repetimos ainda a frase, “tá muito caro, foi feito à mão!”?

 

WhatsApp Image 2018-09-18 at 13.22.21
Thalita Delgado. Jornalista, publicitária e crocheteira. Foto: Eliton Souza

 

Oficina: No dia 29 de setembro de 2018, Thalita estará no espaço Foca Office com uma oficina dividida em dois módulos para quem quer aprender a técnica do crochê em fio de malha. Para saber mais e se inscrever, é só clicar aqui

Anúncios

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s