“Recortes inquietos” e o papel político da moda

Através dos tempos, as roupas sempre se relacionaram com o contexto social, seja por códigos e “regras” de vestimenta, seja pelas referências de cada designer, ou por estampas, cores e materiais, e até mesmo nas ideologias e memórias que estão por trás de cada marca. Observando a roupa como uma segunda pele que carrega infinitos significados, criar ou vestir determinada peça pode ser uma forma de se posicionar politicamente. Moda é comunicação, história e expressão.

Na última semana, entre os dias 15 e 17 de novembro, aconteceu a 2ª Edição da Brasil Eco Fashion Week, em São Paulo. Esse é o maior evento de moda e sustentabilidade da América Latina, e contou com a presença de empresários, consumidores, compradores, marcas  engajadas com as causas socioambientais. No espaço Unibes Cultural, foram realizados talks, palestras, workshops e desfiles. O tema desta edição foi “Inovação e Diversidade”, com a proposta de “incluir, agregar, e somar”, como afirmou uma das idealizadoras do evento, Fernanda Simon.

Diversas marcas que desfilaram no evento aproveitaram o momento para se posicionar e expressar suas ideias e propósitos não apenas nas roupas, mas no espetáculo do desfile como um todo. A marca carioca “Think Blue” chamou a atenção no dia 17, apresentando modelos que erguiam cartazes de manifesto e com frases ditas por Jair Bolsonaro, o presidente eleito no Brasil. De acordo com a empresa, o objetivo foi propor a reflexão: “apesar de eleito, ele não nos representa. Ninguém precisa se acostumar com o que não concorda. Na democracia, podemos exercer nosso direito à oposição.”, afirmaram em uma das publicações no Instagram.

Com direção criativa da designer Mirella Rodrigues, a Think Blue usa calças jeans para produzir roupas feitas a partir da técnica do upcycling. O objetivo é reduzir o impacto ambiental negativo, reaproveitando materiais que já existem para criar peças exclusivas e atemporais. O processo segue a linha do slow fashion, indo na contramão da indústria rápida e de consumo desenfreado.

Os cartazes e a manifestação política estavam diretamente relacionados com as referências escolhidas para a coleção “Recortes Inquietos”. Em meio ao cenário político conturbado, a criação das peças foi baseada nas lutas da libertação sexual feminina de maio de 68, e também lutas de hoje. O jeans remete à viagem pelos tempos, sendo um material que vestiu diferentes gerações,  simbolizando juventude e resistência.

Em outra foto, a criadora se pronunciou: “Eu Mirella, criadora da marca, gostaria de dizer em nome de todas NÓS, que esse desfile foi um BERRO que estava engasgado na nossa garganta, moda é política, moda é revolução, moda é ativismo, moda é EXPRESSÃO! NINGUÉM SOLTA A MÃO DE NINGUÉM!”

A moda, como um fenômeno cultural, influenciou diversos acontecimentos ao longo dos tempos, incluindo revoluções e movimentos artísticos. Assim como no nome da coleção, a moda PRECISA ser inquieta, ativa e atenta ao contexto político e social, sobretudo àquela que se diz engajada com a sustentabilidade e o consumo consciente.

 

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