Seja gentil com você

Por Lessandra Santos.

Eu ia começar dizendo que meu problema com o corpo começou na adolescência, mas acho que é óbvio isso. O problema com o corpo, na maioria das mulheres, começou nesse período, o período em que mais somos bombardeadas pelos padrões sociais, corpo branco, magro, loiro, dos olhos claros.

Eu era uma menina negra, magra com 49 kilos e muito alta. Você pode achar que eu estava meio dentro do padrão por ser bem magra, mas não, eu detestava meu corpo, eu detestava por ser um corpo negro e alto, que chamava mais atenção. Eu fazia várias coisas para me esconder ou para tentar ser parecida com o padrão, alisava o cabelo, usava roupas em tons neutros, andava curvada, não usava nada de acessórios que pudessem chamar mais atenção para o meu corpo, eu não tinha nem espelho, porque eu mesma não queria me ver.

Quando terminei meu primeiro namoro, foi onde a minha visão sobre mim começou a mudar. Era uma relacionamento abusivo e violento que deixou muitas marcas, tive distúrbio alimentar e por conta disso engordei mais de 50 kilos em pouco tempo. Ao mesmo tempo fui acolhida pelo movimento feminista e o movimento negro, que me ensinaram várias coisas, que esse padrão e pressão não fazia parte de nós e que somos incríveis da forma que somos.

Agora eu era gorda e negra, mais bombardeada ainda pelo padrão social.

Só que dessa vez eu estava feliz com quem eu era, estava feliz com meu corpo, porque foi esse corpo que aguentou tudo que passei no meu relacionamento e me manteve firme, foi com esse corpo que fui abraçada por várias mulheres queridas e me consolaram no meu momento mais difícil, esse corpo que me movimenta, me acompanha nas minhas conquistas, corre atrás dos meus sonhos, conta uma história. Cada marca, cada cicatriz, o meu peso, o meu cabelo, cada partezinha desse corpo conta a minha história e me mostra todas as batalhas e conquistas que tive.  

Essa linha de pensamento está ligada ao Body Neutrality, a neutralidade corporal na tradução, um movimento que se baseia em reconhecer o que seu corpo faz e não o que ele aparenta, quando você começa a enxerga-lo com esse carinho, passa a ser mais gentil com ele e com você.

A outra diferença desse movimento, é que não existe uma pressão para se sentir bonita o tempo todo, ou até se forçar a fazer isso se olhando no espelho e dizendo a si mesma o quanto se ama, pelo contrário, Body Neutrality acredita que está tudo bem quando não estivermos bem, é natural, é ser sincera com você mesma.

E quando vier esses momentos, não se julgar, nem se preocupar tanto. Eu aconselho que você busque fazer outras coisas, talvez ficar quietinha tomando um cházinho, ler um livro, fazer uma máscara facial (eu adoro sentir minha pele hidratada) ou até encontrar com amigos e se divertir com as histórias deles.  

Se amar é entender seus limites, seus momentos, seu corpo e respeitá-los, isso é ser gentil com você!

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Lessandra Santos é jornalista, produtora de eventos e proprietária do Rema Brechó, além de colaboradora e parceira do Moda Sem Sacola.

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