A moda sem propósito é insustentável

Na última semana, tivemos alguns momentos marcantes para refletir sobre o mercado, a indústria e o sistema da moda. No dia 24 de abril foi celebrado o 6º Fashion Revolution Day – dia para repensar práticas, exigir transparência e caminhar para uma moda que seja mais sustentável para o meio ambiente e a sociedade. A data foi criada após a tragédia de Bangladesh, de 2013, quando o prédio Rana Plaza, que abrigava várias confecções, desabou, resultando na morte de mais de mil funcionários. Essa, infelizmente, não foi a única nem a última tragédia causada pela indústria da moda.

Condições de trabalho análogas à escravidão são descobertas todos os anos em muitas marcas, mesmo dentro do Brasil. De acordo com o artigo 149 do Código Penal brasileiro, são elementos que caracterizam o trabalho análogo ao de escravo: condições degradantes de trabalho (incompatíveis com a dignidade humana, colocando em risco a saúde e a vida do trabalhador), jornada exaustiva (em que o trabalhador é submetido a esforço excessivo ou sobrecarga de trabalho), trabalho forçado (manter a pessoa no serviço através de fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas) e servidão por dívida. Os elementos podem ocorrer juntos ou isolados.

Antes de faltar o simples cumprimento de leis, falta ética, empatia, respeito. Não é preciso ir longe para descobrir casos de desrespeito com o trabalhador, abuso psicológico, ambientes em condições precárias, jornadas de trabalho exaustivas. Isso acontece nos mais variados setores, desde o cultivo de determinada fibra, até às lojas. A ambição de desejar que uma marca cresça rápido e gere cada vez mais lucro, faz, todos os dias, com que a moda pareça ser uma das grandes vilãs dos nossos tempos. A preocupação com apenas produzir, vender e vender faz com que a moda perca sua real essência.

Estamos falando de um sistema que sobrevive do consumo, mas a lógica de funcionamento desse sistema precisa mudar. A máquina da moda sempre foi movida pela novidade, mas a inovação que precisamos hoje não é em estampas de vestidos. O consumo sempre existirá, mas é preciso haver inovação para além do produto.

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Amamos moda. Acreditamos na moda. A moda serve à vida das pessoas, aos seus sonhos, à sua construção de identidade, ao estabelecimento de laços sociais. Nas palavras de André Carvalhal, no livro “Moda Com Propósito”: “A segunda maior atividade econômica do mundo tem como produto final as roupas, mas seu papel vai bem além disso. Trabalhar com moda não pode ter só a ver com criar, combinar, comercializar ou comunicar roupas.”

É preciso lembrar “por que” e “para que” estamos trabalhando. Estamos vivendo um momento de tomada de consciência, mas não é possível acreditar em uma atitude consciência vinda do consumidor, se dentro das marcas esse movimento não acontece. As marcas precisam agir de forma verdadeiramente transparente, não apenas publicando fotos de seus trabalhadores durante o Fashion Revolution Week com a #quemfezminhasroupas. Mas de fato revisando os métodos de trabalho, valorizando os funcionários, proporcionando condições dignas. O propósito não pode ser “da boca para fora”. Não adianta fazer marketing demonstrando consciência e não praticar o que publica. A moda sem propósito é vazia e insustentável.

Feliz dia do trabalhador para quem executa seu ofício de forma verdadeiramente ética, independentemente da área.

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