Moda Sustentável não é sobre etiquetas plantáveis

É também sobre tudo que está além da embalagem. Neste texto, te convidamos a uma breve reflexão sobre a consciência rasa e os falsos conceitos de sustentabilidade que permeiam o marketing verde.

A etiqueta feita em “papel semente” agrega certa graciosidade, é um mimo delicado para quem compra uma peça de roupa especial. A ideia de ter uma roupa nova aliada à oportunidade de plantar uma árvore é ótima sim. Hoje, muitas marcas adotam a estratégia como uma forma original de evitar mais produção de lixo e, principalmente, um jeitinho de oferecer aquele afago no coração e na consciência de seus clientes. Não, este post não é sobre etiquetas e embalagens. E não, eu não reprovo de forma alguma a iniciativa de oferecer etiquetas plantáveis ou caixas recicláveis e belas ecobags. A gente só não pode é assumir que uma marca é sustentável apenas por esses detalhes. São pontos de impacto mínimo ao compararmos o impacto ambiental da produção de uma camiseta, mas sei que podem ter um impacto grande na percepção dos consumidores.

De uns tempos pra cá, (ou será que de todos os tempos pra cá?) a sustentabilidade tem andado lado a lado com o oportunismo. Em algum momento entre tanto lixo, tanta poluição e tanto descaso, a preocupação ambiental começou a deixar de ser vista como coisa de gente “ecochata” e assumiu ares descolados. Virou tendência, sinônimo de gente antenada e legal. Se tornou cada vez mais difícil separar o joio do trigo: quais as marcas estão buscando a sustentabilidade de forma genuína e quais as marcas estão buscando o seu dinheirinho trajadas de tons terrosos e imagens bucólicas hiper conceituais? Eu não tenho a resposta. Neste cenário, o Green Washing fisga consumidores que agora estão buscando um consumo consciente e talvez até se culpem menos ao consumir uma marca que se diz sustentável. E quem vai dizer que é errado cair na lábia do marketing verde que foi perfeitamente estruturado para te fazer acreditar que você não está comprando uma camiseta, mas sim um propósito, uma mudança?

Um erro é acreditar que a moda sustentável depende dos consumidores. Estamos o tempo todo bombardeados de informações e publicidades por todos os lados e eu entendo que sim, se distanciar de tudo isso no momento de uma compra (ou não-compra) pode sim ser um desafio. O consumo vai muito além de ser ou não ser consciente. É sobre valores, sonhos, desejos. É sobre uma indústria que a todo momento nos apresenta novas necessidades. E também é sobre um capitalismo que se apropria de conceitos para lucrar com suas ideologias.

E moda sustentável existe?

A sustentabilidade envolve três pilares: social, ambiental e econômico. Volto à conversa sobre as tags plantáveis. Vamos supor que a minha marca produza camisetas de algodão dentro de uma confecção completamente ética. Então eu escolho uma embalagem ecológica, uma etiqueta com sementes de alecrim. E aí eu desenvolvo um trabalho de marketing lindíssimo informando ao meu público que a minha marca é sustentável. O que eu fiz de realmente sustentável? O meu cuidado ambiental precisaria passar pela produção das peças também, concorda? Posso ter passado pelos pilares social e econômico, mas a minha escolha de tecido não foi ambientalmente sustentável. Pois é, o algodão é uma das maiores pegadinhas da moda “sustentável”. Quando não é orgânico, ele é um dos tecidos mais poluentes e tóxicos. Neste link aqui você pode descobrir mais sobre isso.

Mais uma vez, minha questão não é com a escolha de uma embalagem sustentável, mas sim com a desonestidade. Uma coisa é uma marca tomar atitudes “mais sustentáveis” de forma sincera e transparente, outra coisa é vender uma ideia falsa, transformando uma atitude mínima em algo extraordinário. Recentemente duas notícias absurdas me chamaram a atenção: uma certa atriz global lançou uma marca (entre mil aspas) sustentável. Não há absolutamente nada de realmente sustentável na marca, exceto pelas etiquetas. E é isso: a sustentabilidade que não dá nenhum passo além da embalagem não é nada além de um desserviço que confunde o público. A coleção da nova marca se esgotou em pouquíssimo tempo enquanto pequenas marcas  se desdobram e trabalham arduamente todos os dias para tentar gerar alguma mudança de fato efetiva na moda. A outra notícia absurda foi a de uma marca enorme de Fast Fashion que lançou uma coleçãozinha especial e “sustentável”. Foi aplaudida de pé por nomes bem famosos envolvidos com a causa. Dias depois vi que estava havendo uma promoção um tanto quanto suspeita no site dessa mesma marca. Roupas da coleção tradicional (que domina a maior parte da produção desta Fast Fashion) sendo vendidas a preço de banana. Enfim, a hipocrisia.

 

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