Pratique a moda consciente a partir do seu estilo pessoal

A nossa forma de se vestir é construída a partir das nossas referências estéticas, contextos, histórias e uma soma de muitos fatores que podem variar de pessoa para pessoa. Estilo é a maneira como podemos expressar os nossos pensamentos, sentimentos e emoções, resultando em características estéticas que, juntas, fazem parte da construção da nossa imagem como indivíduos singulares.

Compreender o estilo pessoal é uma forma de se conhecer melhor. Por outro lado, quem se conhece e se entende nesse sentido, faz escolhas mais conscientes na hora de decidir o que entrará no seu guarda-roupas, sabendo o que realmente gosta de usar, que fará sentido e terá funcionalidade.

“Moda consciente” é sobre consumir de forma ética e com respeito ao meio ambiente, mas também é sobre se respeitar. Respeitar o seu estilo, seus valores e seus gostos pessoais.

Aqui vão algumas dicas simples para começar a praticar a moda consciente voltando o olhar para você e para o seu estilo:


1- Entenda o seu armário

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Organize seu guarda-roupas, visualize todas as peças e procure entender o que você já tem ali. Qual é o tipo de roupa que você mais usa? E quais são as roupas que ficam sempre encalhadas? O que você tem em excesso?

2- Analise suas roupas favoritas

Observe as roupas que você mais gosta e que fazem você se sentir bem: Quais características elas têm em comum? Pense em quais características são mais importantes para você: é um tipo de tecido? Algum detalhe estético? A cor? A simplicidade? A modelagem diferente? A versatilidade?

3 – Saiba do que você não gosta.

Descubra as características que você não gosta, pensando nos motivos que fazem você não usar ou se sentir desconfortável com alguma peça.

4 – Faça escolhas atemporais:

Na hora de escolher novas roupas, procure adquirir peças que vão durar além daquela temporada, que combinam com o que você já entendeu sobre você e continuarão fazendo sentido quando a tendência passar

Essas são dicas simples, mas eu espero que elas possam te ajudar e inspirar de alguma forma. ❤

 

*A foto de capa desta matéria é do editorial “Natureza e Movimento”, fotografado no primeiro semestre de 2018.

Salada de frutas no guarda-roupa: Conheça 4 tecidos inusitados e sustentáveis

Com a necessidade de inovação na indústria têxtil, algumas empresas têm investido em pesquisas para desenvolver tecidos que gerem menor impacto ambiental do que os materiais tradicionalmente usados. O algodão comum, por exemplo, é um dos tecidos que mais geram poluição, sua produção demanda o gasto de muita água, inseticidas e pesticidas. Já temos em contrapartida o algodão orgânico, opção que economiza água e preserva a saúde do solo no plantio. Mas a moda sustentável foi além, e, na busca por alternativas ecológicas para o couro e a seda animal, os resíduos das frutas tornaram-se matéria-prima.

Confira abaixo 4 tecidos sustentáveis criados a partir de frutas:

1. PIÑATEX (Couro de Abacaxi):

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Piñatex – o couro feito de folhas de abacaxi

O Piñatex é uma imitação de couro feita a partir das folhas do abacaxi. O tecido foi criado pela designer Carmen Hijosa, nas Filipinas. Na década de 1990, depois de trabalhar por muitos anos na indústria do couro, Carmen recebeu um convite para atuar no Centro de Design das Filipinas. Por lá, a designer começou seus estudos em busca de alternativas ao couro, tendo como objetivo o desenvolvimento de um material sem nada de origem animal e que pudesse gerar o menor impacto possível para o meio ambiente, além de contribuir com comunidades agrícolas. Para a produção do Piñatex, o resíduo que seria descartado é reaproveitado. O “couro” produzido é tão forte como o de origem animal e pode ser utilizado para fabricar roupas, calçados e acessórios. Vale destacar que o tecido é mais barato e mais leve do que o couro animal.

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Piñatex

Diversas marcas já utilizaram o tecido de abacaxi em suas criações, como por exemplo a marca Hugo Boss, que possui uma coleção de calçados feitos com o Piñatex.

2. PELLEMELA (Couro de Maçã):

A maçã é o componente do “couro” Pellemela

A maçã é outra fruta que vem sendo utilizada para contribuir com a moda sustentável. A empresa italiana Frumat aproveita as sobras da fabricação de sucos de maçã para criar um material compostável e reciclável, que se parece com o couro, nomeado Pellemela. Esse tecido é feito com 50% de fibra de maçã reciclada e 50% de poliuretano. O material originado permite a criação de roupas, bolsas, calçados, cintos, carteiras, e até artigos de papelaria.

Em 2017, a estilista eslovena Matea Benedetti, que já costumava utilizar matérias primas sustentáveis, apresentou sua coleção primavera/verão 2018, sendo a primeira marca de moda a criar roupas com o couro de maçã. Esse tecido é respirável, é impermeável e vegano.

Criação de Matea Benedetti

3. WINELEATHER (Couro da Uva):

Anualmente a Itália produz cerca de 26 bilhões de litros de vinho, gerando aproximadamente sete bilhões de quilos de bagaço de uva. Observando isso, a empresa italiana Vegea criou um tecido parecido com o couro, feito a partir dos resíduos da indústria do vinho.

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Wineleather

O produto é o Wineleather, um tecido criado por um tratamento especial de fibras e óleos contidos nos bagaços da uva, obtidos a partir de peles, sementes e caules da fruta utilizados na produção do vinho. Segundo os cálculos feitos pela Vegea, o volume de bagaços de uva gerados a partir da produção de vinho pode ser convertido em três bilhões de metros quadrado de Wineleather.

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Wineleather

4. ORANGE FIBER (Seda de Laranja):

Em 2014, duas empresárias italianas, Enrica Arena e Adriana Santanocito desenvolveram a Fiber Orange, uma seda vegana produzida com o material reaproveitado da indústria de suco de laranja. Adriana é designer com especialização em Materiais Inovadores e Enrica é formada em Comunicação e Relações Internacionais. Elas são da Sicília, mas se conheceram e moram juntas em Milão. Na Sicília, como em outras províncias da Itália, há grande produção de laranja para fazer suco. Assim, as cascas, bagaços e sementes são descartadas, gerando muito resíduo.

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Orange Fiber

Feita a partir da celulose do bagaço, a seda é leve, suave e pode ser opaca ou brilhante. Em 2017, a grife de luxo Salvatore Ferragamo criou uma coleção em parceria com a Fiber Orange. A H&M, em sua “Conscious Exclusive Collection”, também escolheu a fibra para fazer parte da coleção.

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criação da grife Salvatore Ferragamo com o uso da Orange Fiber

O 3º Encontro Moda Sem Sacola vem aí!

Temos um Encontro marcado no sábado, dia 10 de agosto, no Tenetehara Instituto Cultural. A 3º edição do Encontro “Moda Sem Sacola” está chegando e a programação foi preparada com muito carinho com o propósito de fortalecer e divulgar as ideias do consumo consciente em Juiz de Fora.
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Time! Isabela Magalhães e Lessandra Santos. / Foto: Jair Roberto

Para o evento, selecionamos cerca de 20 expositores de variados segmentos, entre marcas autorais, brechó, sustentabilidade, gastronomia, moda consciente e tatuagem. Além disso, a programação conta com uma oficina sobre leites vegetais, um workshop de Comunicação para a Moda Consciente e show com o cantor Igor Silveira.

Em sua 3ª edição, o Encontro Moda Sem Sacola une criatividade, cultura, sustentabilidade e ativismo social. O grupo “Veganos de Rua”, projeto social que distribui refeições para pessoas em situação de rua, participará desta edição arrecadando doações de roupas, cobertores e alimentos (feijão, proteína de soja e macarrão de sêmola).

Nosso Encontro terá programação das 10 às 20 horas do sábado. A feira acontecerá a partir das 13 horas, com entrada gratuita. Para a Oficina e para o Workshop é preciso realizar a inscrição por meio do Sympla.

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Foto e design: Isabela de Magalhães/ Produção e styling: Luana Braz, Gabriela Rodrigues e Lessandra Santos / Modelo: André Magalhães


Expositores confirmados:

Vestuário: Limbo Brechó + Brechó da Leia + Hold Activewear + Me Ghusta Salve Maria

Artesanato e decoração: Alegra Ateliê + Flor da Terra Terrários + Bordadê + Mandal’Art

Produtos ecológicos: Flaviartes Ecoprodutos + Trampolina

Cosméticos naturais: Saboogaia

Acessórios: Fulô

Brinquedos: Juju Sarita

Gastronomia: Tenetehara + Delícias da Sara

Tatuagem: Wylker Simões

Projeto Social: Veganos de Rua

Programação:


Feira:
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Foto: Jair Roberto
13h às 20h.
Entrada Gratuita
 

OFICINA leites

Oficina de Leites Vegetais:

10h às 12h.
Valor: 20 reais.
Na oficina, Sara Manso, da empresa “Delícias da Sara” vai ensinar receitas básicas de leites vegetais, de inhame, castanha de caju, aveia e amendoim, além de creme de castanha de caju e iogurte de aveia.


OFICINA COMUNICAÇÃO PARA A MODA CONSCIENTE
Workshop de Comunicação Para a Moda Consciente:
13h30 às 16h30.
Valor: 30 reais.
O workshop terá atividades teóricas e práticas e será conduzido pelas produtoras de moda Luana Braz e Gabriela Rodrigues, juntamente com a jornalista e comunicadora de moda Isabela Magalhães. 

Show com Igor Silveira: 
Às 18h
Entrada gratuita.

Local:  

O espaço Tenetehara fica localizado na Avenida Presidente Costa e Silva, nº 2776, São Pedro. 

Foto: Vanessa Oliveira
Foto: Vanessa Oliveira

Participe! Esperamos você! ❤

O que é moda?

Moda é muito mais do que um objeto de consumo: é criação, memória, identidade, política, discurso, arte, comunicação. Não cabe na sacola.

Foi com o pensamento acima que surgiu o nome desse blog, “Moda Sem Sacola”. Eu sempre me interessei por moda, mas principalmente pela multiplicidade de sentidos que ela tem. Com origem do latim modus, que significa maneira, a moda é inicialmente denominada como um modo individual de fazer, ou uso passageiro de determinada forma. Maneira de ser, modo de viver e se vestir, como afirma a autora Renata Pitombo Cidreira no livro Os Sentidos da Moda.

Joguei a pergunta “O que é moda?” lá no Instagram e a resposta que mais se repetiu foi que moda é expressão. Acho essa definição ótima, porque cada roupa que adotamos está ligada a certos aspectos do comportamento e da nossa personalidade, e, ao mesmo tempo, expressa muitas histórias além da nossa própria, comunicando sobre a época, grupo ou até mesmo sobre o designer responsável pela criação da peça.

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De acordo com o livro História Social da Moda, da autora Daniela Calanca, “com o termo ‘moda’ entende-se, especificamente, o fenômeno social da mudança cíclica dos costumes e dos hábitos, das escolhas e dos gostos.” Podemos dizer que existe moda quando o “amor pelo novo” se torna um hábito, uma exigência cultural. O conceito de moda não diz respeito somente às roupas, mas a todos os meios de expressão e transformação do homem.

A roupa como segunda pele

A vestimenta é uma das muitas modalidades de interferência sobre o corpo. Quando nos vestimos, criamos a partir do que é natural, expondo o corpo a um tipo de metamorfose. Transformando esse corpo, a roupa age como uma segunda pele, adaptável à nossa vida e funções que desempenhamos.

Como pontua Renata Pitombo Cidreira, “A indumentária funciona, muitas vezes, como uma máscara, permitindo-nos incorporar vários personagens, fazendo-nos atuar conforme o figurino.” Para exemplificar, eu penso na sensação de usar um vestido longo, formal, com sandálias de salto-alto, algo que é distante da minha rotina: enquanto tento me equilibrar no desconforto dos saltos, curto a sensação de me sentir uma princesa com o vestido esvoaçante. O traje de festa, na minha vida, é uma máscara que gosto de experimentar de vez em quando.

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Eu em uma das roupas mais especiais do meu armário ❤

Portar uma vestimenta é um ato de significação muito além do pudor, proteção ou adorno. A indumentária e a moda podem refletir, reforçar ou disfarçar sentimentos. São modos pelos quais podemos nos diferenciar e declarar as nossas singularidades.

 

Inspiração: Ideias para fugir do óbvio e aproveitar melhor o seu armário

Se queremos consumir de uma forma consciente, antes de qualquer coisa é preciso refletir se realmente precisamos consumir algo novo. A vontade de ter uma novidade no look não precisa ser suprida necessariamente por uma compra: que tal mudar o seu olhar sobre as coisas que já estão no seu armário?

Eu amo ficar horas e horas no Pinterest, procurando ideias e referências pra tudo, até para a geladeira do apartamento que eu quero ter em 2023 (hahaha). Decidi unir o útil ao agradável para separar algumas inspirações que vão te ajudar a bolar looks diferentes com as roupas que você já tem, dá uma olhada:

1. Misture estampas

Tenho certeza que tem alguma peça estampada que você não está usando muito porque acha que ela não combina com muita coisa. Que tal tentar misturar estampa com estampa? Sem medo de arriscar! Comece no nível básico, combinando estampas de poucas cores, em tons neutros. Aos poucos você vai ganhar confiança para experimentar combinações mais ousadas e coloridas.

 

2. Sobreposição é multiplicação!

Esse trucão é um aliado para tirar o look do óbvio sem grandes esforços: camisa aberta por cima de outra peça, camisa fechada por baixo de outra, camiseta com um vestido por cima, golinha de uma blusa aparecendo por baixo de outra. Possibilidades não faltam! E sua roupa vai ficar com uma cara totalmente diferente.

 

3. Combine cor com cor

Para muitas pessoas, essa dica deve ser tão desafiadora quanto a primeira. Uma ferramenta que pode ajudar muito é o círculo cromático. Você pode se orientar combinando as cores complementares (de lados opostos no círculo) ou análogas (cores próximas dentro do no círculo).

 

Círculo Cromático. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/520306563198675343/
Círculo Cromático. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/520306563198675343/

Gostou das inspirações? Aproveita e segue o Moda Sem Sacola no Pinterest para conferir tudo que a gente descobre por lá:

 

A moda sem propósito é insustentável

Na última semana, tivemos alguns momentos marcantes para refletir sobre o mercado, a indústria e o sistema da moda. No dia 24 de abril foi celebrado o 6º Fashion Revolution Day – dia para repensar práticas, exigir transparência e caminhar para uma moda que seja mais sustentável para o meio ambiente e a sociedade. A data foi criada após a tragédia de Bangladesh, de 2013, quando o prédio Rana Plaza, que abrigava várias confecções, desabou, resultando na morte de mais de mil funcionários. Essa, infelizmente, não foi a única nem a última tragédia causada pela indústria da moda.

Condições de trabalho análogas à escravidão são descobertas todos os anos em muitas marcas, mesmo dentro do Brasil. De acordo com o artigo 149 do Código Penal brasileiro, são elementos que caracterizam o trabalho análogo ao de escravo: condições degradantes de trabalho (incompatíveis com a dignidade humana, colocando em risco a saúde e a vida do trabalhador), jornada exaustiva (em que o trabalhador é submetido a esforço excessivo ou sobrecarga de trabalho), trabalho forçado (manter a pessoa no serviço através de fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas) e servidão por dívida. Os elementos podem ocorrer juntos ou isolados.

Antes de faltar o simples cumprimento de leis, falta ética, empatia, respeito. Não é preciso ir longe para descobrir casos de desrespeito com o trabalhador, abuso psicológico, ambientes em condições precárias, jornadas de trabalho exaustivas. Isso acontece nos mais variados setores, desde o cultivo de determinada fibra, até às lojas. A ambição de desejar que uma marca cresça rápido e gere cada vez mais lucro, faz, todos os dias, com que a moda pareça ser uma das grandes vilãs dos nossos tempos. A preocupação com apenas produzir, vender e vender faz com que a moda perca sua real essência.

Estamos falando de um sistema que sobrevive do consumo, mas a lógica de funcionamento desse sistema precisa mudar. A máquina da moda sempre foi movida pela novidade, mas a inovação que precisamos hoje não é em estampas de vestidos. O consumo sempre existirá, mas é preciso haver inovação para além do produto.

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Amamos moda. Acreditamos na moda. A moda serve à vida das pessoas, aos seus sonhos, à sua construção de identidade, ao estabelecimento de laços sociais. Nas palavras de André Carvalhal, no livro “Moda Com Propósito”: “A segunda maior atividade econômica do mundo tem como produto final as roupas, mas seu papel vai bem além disso. Trabalhar com moda não pode ter só a ver com criar, combinar, comercializar ou comunicar roupas.”

É preciso lembrar “por que” e “para que” estamos trabalhando. Estamos vivendo um momento de tomada de consciência, mas não é possível acreditar em uma atitude consciência vinda do consumidor, se dentro das marcas esse movimento não acontece. As marcas precisam agir de forma verdadeiramente transparente, não apenas publicando fotos de seus trabalhadores durante o Fashion Revolution Week com a #quemfezminhasroupas. Mas de fato revisando os métodos de trabalho, valorizando os funcionários, proporcionando condições dignas. O propósito não pode ser “da boca para fora”. Não adianta fazer marketing demonstrando consciência e não praticar o que publica. A moda sem propósito é vazia e insustentável.

Feliz dia do trabalhador para quem executa seu ofício de forma verdadeiramente ética, independentemente da área.

Encanto no processo: Os cosméticos naturais e a marca Capim Limão

A preocupação com a saúde e com a natureza tem levado algumas pessoas a optarem por mudar seus hábitos pessoais ou desenvolver outros. Inserida em um contexto de resgate de técnicas antigas e desaceleração, a cosmética natural é uma forma de cuidado com nós mesmos e também com o mundo. Em Juiz de Fora, temos algumas marcas de produtos feitos artesanalmente e sem agredir o meio ambiente, como é o caso da Capim Limão. Conversamos com Luciana Grasiele Nogueira, a idealizadora da empresa, para conhecer seu trabalho e sua história.

 

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Cresci na roça, correndo descalça, aprendi a brincar com o que a natureza me oferecia

Óleos, hidratantes, máscaras faciais e xampus feitos de forma artesanal têm ganhado as penteadeiras de consumidores que não querem mais fazer uso de produtos apenas pelas promessas das embalagens, sem saber as origens ou significado dos elementos descritos nos rótulos. A Capim Limão Cosmética Natural surgiu com o objetivo de levar informação e autonomia para os consumidores, para que eles saibam o que estão colocando em contato com o próprio corpo e usem a natureza a seu favor.

A idealizadora da marca conta que cresceu na roça, no interior de Minas Gerais, aprendendo a brincar com o que a natureza oferecia. Ela recorda que naquela época sua avó fazia sabão para cozinhar, lavar roupa e também para higiene pessoal, era algo cotidiano, mas foi só anos mais tarde que Luciana decidiu se envolver com a cosmética e aprender os processos de produção.

 

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Questão de saúde

Foi quando descobriu um problema de saúde que ela mudou o estilo de vida e passou a buscar por opções mais naturais. “Como eu tenho uma doença neuromuscular degenerativa, eu tenho que ter muito cuidado com tudo que eu uso, porque é uma doença que não tem cura.”, conta. Luciana tem Ataxia de Friedrich e hoje sente que sua doença está estável e, portanto, se mantém nessas condições mais naturais para que assim continue.

Ela sempre usou óleo de coco no cabelo, fazia low poo, e, depois que engravidou começou a ficar ainda mais atenta a tudo. Depois que a filha nasceu, descobriu os produtos de uma outra marca de Juiz de Fora, a Casa do Lago. “Me apaixonei e comecei a pesquisar e ver várias coisas que eu mesma podia fazer. Comecei a fazer extrato de babosa em casa, usar, comecei a fazer meu próprio desodorante”.

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Saí de férias da faculdade e não voltei mais

Depois disso, já no início do ano de 2017, ela fez um workshop de saponificação e começou a se aventurar em casa. “Meu primeiro sabão deu certo e parece que ali tinha nascido meu segundo filho, de tão feliz que eu fiquei. Aí eu comecei a fazer os sabões, pra uso da minha família, depois fiz um curso on-line de cosmética natural, dessa vez mais aprofundado.” Ao concluir o curso, Luciana começou a se arriscar em emulsões, ceras, e então decidiu começar a vender os produtos.

Na época, a cosmetóloga fazia faculdade de psicologia na UFJF, mas estava tendo muitas despesas. “Ao mesmo tempo eu estava fazendo em casa algo que estava me preenchendo muito e que eu amava. E eu não tinha aula na quarta-feira, o pessoal começou a me pedir para fazer para vender, comecei nas quartas-feiras de manhã na pracinha São Mateus, já estava apaixonada, então saí de férias da faculdade e não voltei mais!”

Intenção

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Quando a pessoa adquire um produto, ela está levando também o meu desejo de que aquele produto faça bem.

Luciana destaca que a etapa mais importante do processo, para ela, é a intenção que ela coloca em cada produto. “As matérias primas que eu escolho eu tomo cuidado ao escolher, tenho o cuidado de conhecer meus fornecedores, de conhecer de onde vem aquele óleo, como ele é processado, então todo o cuidado que envolve é a forma como eu coloco amor naquele produto”.

Quando termina de fazer um cosmético, ela tem consciência de que ali está toda a intenção de fazer um produto bom, íntegro, o mais puro possível. “Então quando a pessoa adquire um produto, ou quando eu dou de presente, a pessoa está levando muito mais do que um produto, está levando também o meu desejo de que aquele produto faça bem para ela. Então isso eu gosto muito, porque eu coloco muita verdade, muita honestidade no que eu faço”.

Produção

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A primeira etapa é definir o objetivo do produto, se é para qual tipo de pele ou cabelo; em seguida, são escolhidos os ingredientes que vão fazer esse objetivo ser atingido. Se a pele é muito sensível ou seca, materiais específicos serão usados. Cada ingrediente tem uma característica. Sobre os ingredientes utilizados na marca, Luciana afirma: “o que eu posso adquirir orgânico eu adquiro e todos os óleos que eu uso são prensados a frio, não são óleos refinados, nem refino químico nem com altas temperaturas. Porque na alta temperatura o óleo perde vários nutrientes.”

Depois acontece a escolha dos óleos, dos extratos, então é feito o hidratante, depois a escolha do emulsificante e outros materiais. Se o produto for um sabão novo, por exemplo, envolve toda a parte de pesquisa, planejamento. O processo, que é todo artesanal, demanda atenção e cuidado em várias etapas, como o controle de temperatura. Temperaturas e tempos diferentes fornecem resultados variados.

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A marca Capim Limão produz alguns produtos sob encomenda, para atender necessidades específicas dos clientes, mas também existe uma linha de produtos, composta por 4 tipos de sabonete, 2 de xampu sólido, desodorante, 2 hidratantes, hidratante capilar e sal de banho.

De acordo com a cosmetóloga, muitos produtos são multifuncionais porque a cosmética natural em si deseja ser acessível, não é algo para chegar só a uma camada da população. A ideia, portanto, não é que o consumidor precise ter uma penteadeira lotada de produtos, mas que possa escolher um que sirva para várias funções.

Autonomia

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A ideia é levar autonomia para as pessoas para que elas conheçam o que estão passando no corpo delas, conheçam os extratos vegetais, o que se pode usar, o que faz bem.

“Queremos que a pessoa busque outros tipos de óleo, de ervas; que ela observe o que dá mais certo para ela. Se essa pessoa não puder fazer seus próprios cosméticos, ela pode comprar da Capim Limão, ou de outra marca, tem muitas marcas de cosméticos naturais muito boas”, pontua Luciana.

O objetivo da cosmética natural não é apenas vender o produto, é propagar uma ideia.

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Onde encontrar:

Instagram: https://www.instagram.com/capimlimao.cosmeticanatural/

Galeria Secreta: Rua São Mateus, 262.

 

Fotos: Isabela de Magalhães

2º Encontro Moda Sem Sacola: Marcas locais, criatividade e cultura

Em Juiz de Fora tem muita gente criativa, dos mais diversos segmentos, com marcas autorais de qualidade e que todo mundo deveria conhecer. Comprar “de quem faz” e apoiar pequenos empreendedores é uma forma de consumir com mais consciência e as feirinhas super ajudam nesse processo. Por meio de eventos assim, você tem a oportunidade de conhecer algumas dessas pessoas e descobrir trabalhos incríveis! Esse é um dos motivos que enchem a gente de orgulho pelo Encontro Moda Sem Sacola.

 

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Um dos expositores da feira, o brechó Clandê. Foto: Isabela de Magalhães

Selecionamos os expositores e reunimos todos em uma tarde linda, cheia de criatividade e inspiração, proporcionando que mais pessoas tenham contato com essas marcas e invistam em histórias e experiências.

Nosso 2º Encontro aconteceu no dia 16 de março, sábado, no mesmo lugar que nos recebeu para a primeira edição. O Tenetehara, espaço cultural no Bairro São Pedro, foi preenchido com uma programação que envolveu oficina, feira, palestra, música e teatro.

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Nosso Encontro foi no Tenetehara Instituto Cultural, em São Pedro. Foto: Isabela de Magalhães

O propósito do Moda Sem Sacola é dar destaque para a moda slow, a sustentabilidade, criatividade e consumo consciente, principalmente em Juiz de Fora. Nosso evento é uma maneira de tornar esse propósito ainda mais concreto, com ações que deixam esses temas mais próximos da população.

Oficina

A programação do Encontro começou às 9 horas, com a oficina de Cosméticos naturais para uso pessoal. Ministrada por Luciana Nogueira, da marca Capim Limão, a oficina possibilitou que as participantes fizessem seus próprios produtos. O objetivo foi despertar o uso dos cosméticos naturais no dia-a-dia de cada um e proporcionar uma experiência mais consciente com o uso de cosméticos.

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Palestra

Vivemos a real necessidade da substituição de uma economia linear, baseada no consumo insustentável por uma economia circular, baseada em uma nova forma de consumo. Ana Carolina Marsicano, mestre em Ciências Sociais, realizou uma palestra sobre consumo e política, abordando a necessidade de um novo sistema para que a sustentabilidade seja possível.

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Foto: Jair Roberto

 

Feira

A feira do 2º Encontro Moda Sem Sacola reuniu 14 marcas de Juiz de Fora e região, de seguimentos diversos, entre marcas autorais de moda, brechós, produtos de artesanato, comidas veganas, cosméticos, joias e decoração. A feira também contou com apresentações de música e teatro, com a presença do grupo teatral Coletivo Feminino, que se apresentou com a cena curta “Boneca” e uma leitura dramatizada, e o show do músico Igor Silveira, que encerrou a programação com músicas autorais e algumas versões de músicas de outros artistas.

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E o 3º?

Em breve a gente divulga a próxima data. Mas é claro que teremos novos eventos e já estamos nos preparativos para o 3º Encontro Moda Sem Sacola! ❤

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Nós, a equipe organizadora do evento: Isabela e Lessandra 🙂 ❤

2º Encontro Moda Sem Sacola

Apoio: Tenetehara Instituto Cultural

Produção: Isabela de Magalhães e Lessandra Santos

Fotos: Isabela de Magalhães e Jair Roberto

Seja gentil com você

Por Lessandra Santos.

Eu ia começar dizendo que meu problema com o corpo começou na adolescência, mas acho que é óbvio isso. O problema com o corpo, na maioria das mulheres, começou nesse período, o período em que mais somos bombardeadas pelos padrões sociais, corpo branco, magro, loiro, dos olhos claros.

Eu era uma menina negra, magra com 49 kilos e muito alta. Você pode achar que eu estava meio dentro do padrão por ser bem magra, mas não, eu detestava meu corpo, eu detestava por ser um corpo negro e alto, que chamava mais atenção. Eu fazia várias coisas para me esconder ou para tentar ser parecida com o padrão, alisava o cabelo, usava roupas em tons neutros, andava curvada, não usava nada de acessórios que pudessem chamar mais atenção para o meu corpo, eu não tinha nem espelho, porque eu mesma não queria me ver.

Quando terminei meu primeiro namoro, foi onde a minha visão sobre mim começou a mudar. Era uma relacionamento abusivo e violento que deixou muitas marcas, tive distúrbio alimentar e por conta disso engordei mais de 50 kilos em pouco tempo. Ao mesmo tempo fui acolhida pelo movimento feminista e o movimento negro, que me ensinaram várias coisas, que esse padrão e pressão não fazia parte de nós e que somos incríveis da forma que somos.

Agora eu era gorda e negra, mais bombardeada ainda pelo padrão social.

Só que dessa vez eu estava feliz com quem eu era, estava feliz com meu corpo, porque foi esse corpo que aguentou tudo que passei no meu relacionamento e me manteve firme, foi com esse corpo que fui abraçada por várias mulheres queridas e me consolaram no meu momento mais difícil, esse corpo que me movimenta, me acompanha nas minhas conquistas, corre atrás dos meus sonhos, conta uma história. Cada marca, cada cicatriz, o meu peso, o meu cabelo, cada partezinha desse corpo conta a minha história e me mostra todas as batalhas e conquistas que tive.  

Essa linha de pensamento está ligada ao Body Neutrality, a neutralidade corporal na tradução, um movimento que se baseia em reconhecer o que seu corpo faz e não o que ele aparenta, quando você começa a enxerga-lo com esse carinho, passa a ser mais gentil com ele e com você.

A outra diferença desse movimento, é que não existe uma pressão para se sentir bonita o tempo todo, ou até se forçar a fazer isso se olhando no espelho e dizendo a si mesma o quanto se ama, pelo contrário, Body Neutrality acredita que está tudo bem quando não estivermos bem, é natural, é ser sincera com você mesma.

E quando vier esses momentos, não se julgar, nem se preocupar tanto. Eu aconselho que você busque fazer outras coisas, talvez ficar quietinha tomando um cházinho, ler um livro, fazer uma máscara facial (eu adoro sentir minha pele hidratada) ou até encontrar com amigos e se divertir com as histórias deles.  

Se amar é entender seus limites, seus momentos, seu corpo e respeitá-los, isso é ser gentil com você!

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Lessandra Santos é jornalista, produtora de eventos e proprietária do Rema Brechó, além de colaboradora e parceira do Moda Sem Sacola.

Moda customizada: A história e as produções da Re.Crie

Na cidade de Cipotânea, na região da Zona da Mata Mineira, o artesanato de palha de milho é uma das principais fontes de renda da população. O ofício foi difundido na cidade na década de 1940 e hoje é sustento para mais de 600 famílias em uma cidade com menos de 7 mil habitantes. A palha é um dos mais tradicionais materiais usados no artesanato. Entre idas e vindas, ela aparece na história da moda e nas tendências de consumo, às vezes no look de praia, e também no visual do dia-a-dia.

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Foto: Isabela de Magalhães

Em Juiz de Fora, a 166 km de Cipotânea, duas amigas se encontraram na faculdade de Design de Moda e decidiram criar juntas. Ou melhor, re-criar. Buscando baixo impacto ambiental e com a intenção de desenvolver peças personalizadas, elas descobriram na palha um dos seus principais materiais de trabalho. Assim, elas compram as bolsas lá de Cipotânea e reinventam, resultando em peças que carregam a memória de uma região, mas também a identidade de quem as usa.

A Re.Crie, marca desenvolvida por Larissa Maaldi e Amanda Pina, trabalha principalmente com a customização de peças, com produção feita sob encomenda, o que evita o desperdício de materiais. Para executar o trabalho, elas usam as bolsas artesanais, e também chapéus, linhas, tecidos e outros artigos, que são, em sua maioria, reaproveitados de trabalhos da época da faculdade. Dessa época, elas destacam que as aulas que mais marcaram foram as de design de superfície, em que aprenderam a agregar cores e bordados nas criações.

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Larissa Maaldi e Amanda Pina, as designers da Re.Crie. Foto: Isabela de Magalhães

Durante o tempo da faculdade, elas também fizeram um workshop com o estilista João Pimenta, em que ele falava sobre reciclagem. “Fizemos roupas do zero sem usar máquina, usando retalhos. Fizemos acessórios com restos de materiais; a gente aprendeu muito com ele sobre isso.”, comenta Larissa. Desde aquela época, elas já descobriam sobre práticas mais sustentáveis na moda, produção com responsabilidade ambiental e criatividade.

A ideia inicial para a marca era trabalhar com customização de roupas de brechó, mas, com a tendência dos chapéus personalizados com nomes, elas decidiram lançar a Re.Crie fazendo esse tipo de peça, o que atraiu várias encomendas. A personalização é uma “tendência” de consumo que tende a crescer e motiva um maior aproveitamento dos produtos, tornando as peças mais significativas para quem usa.

RECRIE
Chapéu personalizado foi grande sucesso no verão de 2017/18. Foto: Jair Roberto

Atualmente, os principais itens vendidos pela Re.Crie são as bolsas, e as designers já estão fazendo planos de novidades em 2019, sempre com itens personalizados.

Hoje, os preços variam entre 50 e 100 reais e as encomendas podem ser feitas no Instagram da marca: https://www.instagram.com/re.criefashion/