As criações construtivistas de Varvara Stepanova

Varvara Stepanova (1894-1958) foi uma das principais figuras do movimento artístico-político revolucionário russo. A artista atuou como designer, pintora, fotógrafa, tipógrafa, ilustradora, cenógrafa e estilista. Foi um dos membros fundadores do Grupo de Trabalhos Construtivistas no Inkhuk (Instituto de Cultura Artística), que mais tarde publicaria o primeiro Manifesto Construtivista. Stepanova acreditava no design como uma ferramenta de educação e informação e compôs a cadeira de professora de design têxtil nas oficinas da escola russa Vkhutemas, em Moscou.

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A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial prejudicou o abastecimento das cidades, causando revoltas e greves que levaram a deposição do czar Nicolau II em março de 1917, seguida de crises até a Revolução Vermelha e um longo período de guerra civil que durou até 1921. Em uma Rússia pós-revolucionária, se fazia necessária a reestruturação da sociedade para um cotidiano que vivesse os ideais da revolução. Assim nasce o movimento artístico de vanguarda Construtivismo, que apresenta a proposta de “objeto construtivista”.

A proposta consistia em levar artistas construtivistas para as indústrias para que eles pudessem transformar as relações de produção e as relações das pessoas com os produtos. Os objetos construtivistas seriam produzidos em massa para racionalizar o desejo dos consumidores. Uma contrapartida à mercadoria capitalista. É neste contexto que a Primeira Estamparia Estatal da União Soviética convida as artistas plásticas Liubov Popova e Varvara Stepanova para criar estampas para seus tecidos.

A estamparia construtivista

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Um dos desafios para as artistas construtivistas ao começar a trabalhar na Primeira Estamparia de Algodão Estatal foi desenvolver padrões pequenos e que fossem facilmente replicáveis. Popova e Stepanova se dedicaram aos estudos sobre estamparia têxtil e decidiram trabalhar com formas simples e geométricas, que atendiam aos critérios estéticos construtivistas e davam sentido mecanizado aos padrões. Tais formas geométricas também agregavam outro significado às estampas: a geometria era associada às máquinas e aos trabalhadores industriais, que no contexto pós-revolucionário, eram o centro da produção soviética. Para reduzir custos, decidiram também trabalhar com uma gama limitada de cores.

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Os efeitos óticos obtidos no desenho das estampas das duas artistas eram intensificados quando estampados em tecido, ganhando mais possibilidades de movimento. Os efeitos eram formas de atribuir aos tecidos o caráter construtivista, tornando-os objetos ativos e prontos para a transformação da vida cotidiana.

Stepanova e a Prozodezhda

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Os trabalhos mais aclamados de Varvara foram aqueles feitos na área têxtil. Em 1923, ela publicou um artigo chamado “A Roupa de Hoje é a Roupa de Produção”, onde afirmava que a moda ficaria para trás, por ser uma representação do mundo burguês, e sugeria o uso da prozodezhda, a chamada “roupa de produção”. Essa seria uma roupa desenhada de acordo com funções específicas, sem decorações e ornamentos. O artigo foi publicado com desenhos feitos por ela de como seriam as roupas. São desenhos geométricos, rígidos e sem diferenciação de gênero. A prozodezhda também abolia as preferencias estéticas individuais ou diferenças sociais, enfatizando seu papel prático.

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Para grande parte da população a prozodezhda não foi aceita como uma roupa para o
dia-a-dia, mas como um traje para fins específicos, como a prática de esportes ou para figurinos de teatro. A roupa parecia ter sido desenhada para um futuro que ainda seria construído, onde a relação do consumidor com a roupa seria mais racionalizada.

Varvara Stepanova teve um marcante papel enquanto artista e teórica da revolução. Apesar dos poucos estudos ocidentais em torno da Revolução Russa, principalmente em torno das mulheres que faziam parte dela de forma ativa, sabemos que foi um período significativo e efervescente. As ideias do período, vanguardistas e sociais, um século depois ainda dialogam com a atualidade.

 

Texto: Isabela Magalhães